domingo, 4 de junho de 2017

Sugestões para a semana

Livros

"As Veias Abertas da América Latina", Eduardo Galeano, Antígona, 466 páginas. A reedição de um clássico de um grande escritor uruguaio, sobre como o seu continente foi delapidado pelo colonialismo e capitalismo. Uma escrita fabulosa, rica de histórias da História.

"Reino do Amanhã", J. G. Ballard, Elsinore, 343 pág. Deste autor criador de "Crash" que deu origem ao filme de David Cronenberg, já tinha noutra altura destacado "Arranha-Céus". Esta é a melhor distopia publicada este ano e retrata o ódio aos imigrantes, como as comunidades se tornam xenófobas à sombra do consumismo.

"Neve Cega", Ragnar Jonasson, Top Seller, 284 pág. Do frio escandinavo têm vindo as melhores criações no género do policial. A personagem de Ari Arason vem da Islândia, mais na linha de Arnaldur Indridason do que de Yrsa Sigurdardottir, os dois mais conhecidos autores daquela ilha. Sobre esta nova saga que surge posso dizer que comecei a ler ontem e acabo daqui a pouco, boa trama, bem ritmada.

Cinema

Na televisão na quinta 22h, no TVC2, "Peço a Palavra", de frank Capra, um dos maiores clássicos do idealismo na política. E na RTP2, na sexta, 23h, a continuação de um mini-ciclo de Ken Loach, que é um realizador que tem obras fenomenais, como "Kes", "I, Daniel Blake", outras interessantes como a que recomendo que ainda vejam nas boxes, na sexta passada, "Spirit of 45" que vi em dezembro na Cinemateca, e outras falhadas como "O salão de Jimmy" que é a que passa dia 9, mas mantenham-se atentos para os que virão.   
Em sala, as três últimas pérolas que passam deste magnífico ciclo de Kenji Mizoguchi, no Nimas, "Intendente Sansho", "O Conto dos Crisântemos Tardios" e "festa em Gion"

Séries

Sei que as atenções actuais estão centradas em Twin Peaks e na 5a temporada de House of Cards, talvez por isso ninguém repare na 3a temporada da série francesa "Os influentes", sobre política e comunicação com a personagem de Simon Kapita, recomendo vivamente. Passa aos domingos na RTP 2 pelas 22.15h

Documentários

Chamo a atenção para "os Anos 80" que tem passado na RTP2 pelas 23h de terças, seguimento, e a sua estrutura é igual, à dos 2Anos 70" da qual já tinha dado nota.

Restaurante

Sítio simpático em Campo de Ourique, mesmo em frente à Casa fernando Pessoa, na Coelho da rocha, está o restaurante Desassossego. Boa cozinha, serviço simpático, pratos surpreendentes, esplanada e boas sugestões de vinhos. para irem espreitar.

Luciana Abreu é mais importante que John Kennedy

O meu artigo no ECO desta semana pode ler aqui

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Sugestões para a semana

Livros

"Conversas finais", Bento XVI, D. Quixote, 285 páginas. Quando teremos em breve a visita do actual Papa a Portugal, li com muito agrado estas conversas do Papa emérito com Peter Seewald, um homem genial, discreto. A sapiência tranquila tão ausente dos dias de hoje.

"Norma", Sofi Oksanen, Alfaguara, 329 pág. O regresso da escritora finlandesa de origem da Estónia. Um romance fabuloso que não atinge o patamar do excepcional "A Purga" que a seu tempo recomendei, mas é um grande livro.

"O Homem Ausente", Hjorth & Rosenfeldt, Suma, 589 pág. Terceiro da saga de Sebastian Bergman, um  grande policial nórdico, e recomendo que leiam os outros dois pois a história é autónoma mas sequencial na vida dos personagens.

Cinema

No TVC3, quinta, 0.15h, um dos melhores filmes sobre jornalismo, de Sidney Lumet
No TVC1, sexta, 2.50, um dos mais interessantes produzidos em Hollywood no ano passado. "Experimenter", de Michael Almereyda, sobre o condicionamento das percepções.
Chamo já a atenção para o mini-ciclo que a Cinemateca a partir de 15 de maio dedica a Otto Preminger, discípulo de Lubitsch, e um dos grandes criadores de Hollywood.

Séries

A terminar esta semana na 2, a excepcional série italiana "1992", que quase passou despercebida e não merecia.
O regresso de Fargo com a terceira temporada e em que o primeiro episódio é superlativo. No TVSéries às 23h ao domingo.

Documentários

Quinta, 1h, na TV5, Hergé e Tintin, sobre o criador e a personagem da BD que encantou todas as gerações
No NG,, quinta 23.45h, "A ascensão dos nazis", documentário que conta toda a ascensão de um pesadelo

Restaurante

Na Rua do Cruxifixo, o Bella Ciao, um excelente italiano e com preços muito em conta e com um ambiente muito simpático e típico.

Salgueiro Maia não merecia o 26 de Abril

No dia 25 de Abril escrevi que “o problema maior do espírito de Abril é que as pessoas já não se lembram bem de Salgueiro Maia porque, depois da Revolução dos Cravos, veio o pesadelo de uma corja de abutres e corruptos que transformaram a alegria da liberdade num jardim de negociatas e comissões em que os seus despojos tivemos nós de pagar”.
Porque se há algo que semeia a instabilidade e a revolta das pessoas contra um regime, contra a classe política, contra instituições que devem ser impolutas, é vermos todos os dias o clima de impunidade que abrange uma série de criaturas que mata empresas, se serve dos cargos que ocupa para depois, ou durante, enriquecer.
É a corrupção que vai corroendo os alicerces da democracia, é a desconfiança com os detentores de cargos públicos que semeia o afastamento de eleitores e eleitos e constrói os elevados índices de rejeição de uma actividade, a política, que é nobre e deve servir para a melhoria da comunidade.
Temos 43 anos de liberdade e isso é uma conquista excepcional que devemos celebrar todos os dias. Eu acredito na política, eu acredito nas pessoas de bem — mas são cada vez mais um oásis no deserto — que trabalham tendo em vista o bem público e o crescimento a todos os níveis da sociedade.
Porém, não convivo bem com corruptos e especialistas em “dar uma palavrinha” que fizeram do que se conquistou com o 25 de Abril no seu parque de diversões do Monopólio, tornando-se milionários, com os portugueses a pagarem sucessivamente todas as aleivosias, todos os erros de gestão, todas as dívidas de bancos que serviram para negócios especulativos de alguns marajás.
Escrevia o Nuno Garoupa, um dos bons, na semana passada que “ninguém pode fingir que Portugal é um oásis sem corrupção, sem gestão danosa, sem tráfico de influências e sem grande criminalidade de colarinho branco”. Pois não pode. Porque é isto tudo que mina os valores de Abril.
O problema é que, “mea culpa” também, todos nós contemporizámos para esta impunidade vigente. Nunca ninguém se revoltou a sério. Porque só com barulho se combate a corrupção, que navega melhor no silêncio da lama, nos murmúrios das salas sem alma, nos favores debaixo do pano.
A partidocracia, os aparelhos partidários de gente que cresce ali sem nada saber fazer na vida, o financiamento de campanhas eleitorais, são a seiva de onde florescem corruptores e corruptos e que causam o sangramento da democracia e da liberdade.
Devemos estar todos gratos aos capitães de Abril pela liberdade em que vivemos, mas o ar que respiramos não é o desse dia histórico, é perverso e cheira a mofo pelo perfume da impunidade. A corrupção não pode matar a esperança do dia seguinte. Salgueiro Maia não merecia o 26 de Abril.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Notas sobre as eleições francesas

Não escrevi até agora nada sobre as eleições francesas. Não o fiz porque conheço a política francesa e ainda melhor as dinâmicas de campanhas eleitorais e neste momento qualquer observador tem de ser cauteloso. Mas há 5 notas que deixo:

1- Ao contrário de outros, eu não comento o que não sei, por isso alguns deviam estar calados sobre estas eleições, porque não percebem nada do estado da arte gaulês e muito menos de campanhas e comunicação política;

2- Há apenas uma certeza:... neste momento o cenário partidário tradicional morreu. A esquerda socialista implodirá, a direita tradicional que sempre teve grupinhos e muitos chefes, vêem o seu poder esvaziar com a ascensão do partido Le Pen e a afirmação de um centro, que tinha como referência Bayrou, e passa a ter Macron;

3- como em todo o mundo, crescem dúvidas sobre os institutos de sondagens. Até que ponto esta realidade de 4 candidatos presidenciais teoricamente, e tecnicamente, empatados corresponde à realidade é algo que só será dissipado depois das urnas encerrarem;

4- também como em todo mundo, vemos a radicalização dos discursos e a ascensão das pontas - esquerda e direita - do espectro partidário com Mélenchon e Marine.

5- Tenho saudades de Mitterrand, Rocard e até de Giscard e Chirac, e muitas mais de De Gaulle. Outros homens, outros tempos.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Sugestões para a semana

Livros

"Memórias Anotadas", José Medeiros ferreira, Temas & Debates, 446 páginas. Homem inteligente e culto que, infelizmente, partiu cedo. E como diz neste seu livro que é um testemunho sobre um tempo onde homens de outra categoria circulavam por aí, foi um homem que podia ter sido melhor aproveitado por Portugal.

"Memórias", Raul Brandão, Quetzal, 622 pág. No âmbito dos 150 anos do seu nascimento, várias edições surgiram deste grande escritor português. Neste volume estão reunidas as memórias que anteriormente estavam divididas em 3 tomos. Se na anterior sugestão tivemos alguém que conheceu a política e a cultura portuguesa no final do século XX, aqui temos a descrição da passagem do século XIX para o XX. Ambos interessantes também desse ponto de vista.

"A sétima função da linguagem", Laurent Binet, Quetzal, 467 pág. Acabei de o ler no sábado, é um romance sobre a morte de Roland Barthes, onde pontificam uma série de grandes referências da cultura francesa e também a disputa de Giscard contra Mitterrand. Livro interessantíssimo, cheio de nuances culturais, que se diverte com a curiosidade intelectual do leitor.

Cinema

Em casa volto a mencionar no TVC 2, na sexta às 17.25h, a possibilidade de verem um dos melhores filmes do ano passado: "Mustang" de Deniz Gamze Eruven.
Também no TVC 2, na quinta, um ciclo de ficção científica dos anos 70, com dois de culto "Soylent Green" e "Zardoz".
Nas salas, em vez de discutirem a qualidade dos nomeados para os Óscares, sugiro que vejam CINEMA. Aproveitem o ciclo no Nimas com um dos melhores realizadores da história do cinema: Kenji Mizoguchi. Dos 9 filmes a apresentar em cópias restauradas, só não vi um. «A Mulher de quem se fala». de resto têm duas obras-primas, «Os contos da Lua vaga» e «Os amantes crucificados» e depois os outros seis, especialmente «A Imperatriz Yang Kwei  fei», são de uma beleza extraordinária. Não percam.

Séries

Para quem só leu estas sugestões hoje, e evitando já que me apareça alguém a mencionar séries que eu conheço, chamo a atenção que estas sugestões são sobre as novidades da semana ou alguma série que esteja a passar despercebida no momento e não sobre as que considero melhores na história das séries televisivas. Posto este aviso para os mais incautos, chamo a atenção para a estreia, hoje, 22.45 no TVSéries, da última temporada de "The Leftovers" e não posso deixar de criticar o pornográfico horário em que a fox Crime decidiu estrear na ultima sexta (ou melhor, sábado á meia-noite) a 5a temporada da excelente "The Americans"temporada de "the Americans".

Documentários

Às terças, na RTP2, tem passado um excelente documentário sobre a América nos anos 70. por volta das 23.30h podem ver uma das décadas mais marcantes na televisão, na política, na cultura.
Na quarta, para os amantes da pintura, também na 2, a história de um pintor que nasceu grego e que marcou a Idade de Ouro de Espanha: "El Greco". Será a partir das 23h.

Restaurante

Se quiserem quando saírem à noite (mas também podem almoçar) optar por um restaurante simples, de comida portuguesa, mas de atendimento simpático e ainda por cima com preços em conta para a qualidade que é apresentada, procurem O Bacalhau na rua de São Paulo.

Cristiano Ronaldo nunca foi a Torremolinos

É muito difícil arranjar adjectivos para ilustrar com justeza as proezas desportivas de Cristiano Ronaldo. Todo o mundo o conhece, é o desportista que mais dinheiro ganhou em 2016, é feliz a fazer o que gosta e nunca foi a Torremolinos em viagem de finalistas.
Este não é um artigo sobre futebol, é sobre a força mental que deve estar na base da criação do sucesso. CR não nasceu em berço de ouro, não teve uma infância fácil, foi criado com amor mas numa família que sofria para todos os dias ter pão na mesa.
Para lá dos seus golos e troféus, o seu melhor exemplo e legado é a maneira como fintou as curvas da vida com mentalidade de campeão. Porque o seu mérito é a capacidade de trabalho, a ambição de ser melhor todos os dias, querer ganhar e superar-se para bater todos os recordes.
CR é um empreendedor que tem por base empresarial o seu talento inato. Apostou todos os dias muito forte na sua área de actividade, trabalhou mais do que o horário de expediente para limar as arestas do seu negócio, aperfeiçoá-lo para se tornar letal como produto e limando as suas debilidades. Teve uma boa gestão de carreira e escolheu os mercados onde podia explodir, seleccionou parceiros e instituições que o valorizaram e optou por uma equipa profissional que o projectou com comunicação e marketing de topo.
É esta a base do sucesso de uma empresa. CR é uma marca mundial, um ícone universal, tão poderosa como a McDonald’s, Nike, Mercedes, porque assenta na honestidade de se erguer do nada e todos os dias, com trabalho, esforço e suor, continuar a atingir todos os objectivos a que se propôs.
E diverte-se também. Há tempo para tudo. Todo o trabalho honesto merece lazer. Mas tenho a plena convicção que para ter sucesso nunca se perdeu em disparates nem selvajarias. Era bom que muitos jovens olhassem mais para o CR que os pode inspirar. Todos os dias devem querer saber mais, ter curiosidade intelectual para descobrir mais coisas, porque o saber nunca ocupa lugar.
Não deve ser motivo de orgulho para ninguém destruir um hotel, atirar colchões para uma piscina, vandalizar bens alheios. O objectivo que deve nortear as nossas vidas é sermos melhores, trabalharmos para isso, para, posteriormente, termos o reconhecimento merecido ao nosso empenhamento diário.
O episódio deplorável dos meninos em Torremolinos é tudo aquilo que não interessa a ninguém e que deve motivar uma profunda reflexão, em primeiro lugar nos pais, e na sociedade. CR até tem um grito peculiar, quase primitivo, parece o momento de libertação de todas as pressões de um jovem tímido que alcançou o sucesso, mas não ficará na história por nenhuma barbárie. Seria bom olhar mais vezes para ele como modelo do Portugal que queremos.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

As "tias ricas" de Dias Loureiro

Causou profunda repulsa a qualquer pessoa de bem a notícia de que o Ministério Público arquivou um inquérito a Dias Loureiro e Oliveira e Costa sobre o caso BPN. Não tendo conseguido provar, mas mantendo a suspeita, os crimes de burla qualificada, branqueamento e fraude fiscal qualificada.
A política serve para melhorar a vida das pessoas, da comunidade, e não para enriquecer alguns que se servem dela para a partir da sua circulação nas salas e restaurantes de poder se tornarem em magos de negociatas e comissionistas de eleição.
Dias Loureiro e Oliveira e Costa são apenas dois de muitos mais rostos que saíram de uma safra sob o manto protector do cavaquismo. Um bando de nulidades e mangas de alpaca que chegaram ao partido, e depois ao Governo, com uma mão à frente e outra atrás e que através dos contactos e de «uma palavrinha» foram crescendo no mundo dos negócios e, em muitos casos, à custa do erário público.
As intimidades e conveniências foram semeadas no poder, floresceram com os fundos estruturais que vinham da Europa e que mais pareciam uma torneira sem fundo como o ouro do Brasil no tempo de D. João V. Depois, sem uma lei do financiamento partidário dura e transparente, eram milhões a entrar sem qualquer controlo. Era um tempo em que se D.Dinis vivesse e perguntasse o que D. Isabel trazia no seu regaço, ela, mulher séria, teria de dizer com verdade: «são malas, senhor, são malas». Sim, malas cheias de dinheiro de diversas proveniências para campanhas eleitorais.
Relembro que têm sido todos os portugueses, dos mais humildes aos com mais posses, que têm pago uma série de descalabros na nossa economia, na banca, em grandes empresas e que assistem a isto tudo sem poderem revoltar-se. Já lá vão 15 mil milhões de euros dos nossos bolsos para safar alguns que continuam a circular impávidos e serenos em restaurantes da moda e alguns ainda têm a pouca vergonha de abrir o bico e comentar o estado da arte.
Este bando de escroques andou sobre o gelo, sem medo, porque ninguém os pune, ninguém consegue provar a ganância rapace destas aves de rapina. Uma alcateia de gente sem espinha e que se está marimbando para nós que temos de viver asfixiados pela austeridade, porque eles estão bem nas suas casas de luxo, nas suas viagens por paraísos tropicais onde, por acaso, se esconde muito do dinheiro sujo.
Sempre que ouvia e via esta ralé moral lembrava-me da “Máscara” (Persona) de Ingmar Bergman: «cada tom de voz uma mentira, cada gesto uma falsidade, cada sorriso uma tristeza». Eu, como o Ministério Público, não os posso acusar de nada. Não tenho provas para isso. A nossa condenação e repulsa é o nojo que sentimos por estas criaturas que se tornaram milionárias sem sabermos muito bem como. Se calhar até sabemos: são as famosas “heranças”. Tantas “tias ricas” têm Dias Loureiro e a restante canalha. Que sorte que têm neste pobre País.

Agustina e o anormal holandês

As redes sociais vibraram com piadas sobre as declarações de um holandês inadjectivável, como diria o João Bénard da Costa, que se referiu estupidamente a Portugal. Na sua estupidez de quem foi arrasado nas últimas legislativas e na pequenez de quem já adulterou o seu próprio currículo, revelou uma visão pequena e mesquinha do seu próprio carácter.
Portugal deu mundos ao mundo, é um dos clichés mais verdadeiros que alguém inventou. Mas a epopeia pelos mares de um pequeno País, que só podia crescer pela via marítima, que fez das suas fraquezas forças e com sagacidade e engenho levou os valores ocidentais por todos os hemisférios devia ser mais estudada e respeitada.
Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral e Bartolomeu Dias não têm hoje a notoriedade de Rembrandt, Vermeer ou Van Gogh, se calhar devíamos fazer mais para a projecção da nossa História, é certo. Mas a sua relevância para a globalização será eterna. Não é um labrego holandês que nos tira o orgulho pelos feitos outrora realizados.
Não gastamos em «mulheres e copos», aliás, muitas famílias portuguesas vivem dificuldades para pôr o pão na mesa e levar uma vida com alguma qualidade. Não somos um País rico, somos é há décadas um País mal governado onde quem devia cuidar de nós em pouco tempo passa dos aparelhos partidários para a mesa do Ritz e para as comissões das negociatas à mama do Estado. Vejo muitos milionários que andavam com uma mão à frente e outra atrás antes de passarem por Governos, isso vejo.
Mas os portugueses não enriqueceram. Longe disso. E triste fico, e todos deviam ficar, quando lemos que a editora de Agustina Bessa-Luis, a Babel, acha muito caro o valor mensal de 1.500 euros que paga a uma mulher de mais de 90 anos e que está doente. Isso é chocante quando se toca numa das maiores escritoras de língua portuguesa.
Agustina é património português, a riqueza da sua escrita é tão superlativa como a grandeza dos nossos Descobrimentos. Era bom que tantos de nós que gozámos e reagimos a um holandês de caracolinhos que deve ter uma vida cinzenta e medíocre, não deixássemos de reagir a esta degradante e moralmente miserável notícia que vilipendia uma grande mulher e uma grande criadora, uma artista das palavras em português.
A editora diz que Agustina vende pouco. Mas todos se lembram do momento em que Paulo Teixeira Pinto adquiriu a Babel e a exibiu como a jóia da coroa. Eu não me esqueço, tenho memória. Se calhar venderiam mais copos de vinho e facturariam mais com um bordel, seguindo as pisadas do aforismo imbecil do holandês. Isto é lamentável e obscenamente vergonhoso.
Dizia Agustina que «os portugueses são profundamente vaidosos. Quando me dizem que eu sou muito vaidosa, eu, nisso, sinto-me muito portuguesa. (o português) Apresenta uma espécie de capa e de fisionomia de humildade, modéstia, submissão. Mas não é nada disso, é justamente o contrário. Houve épocas da nossa História em que a sua verdadeira natureza pôde expandir-se sem cair no ridículo, mas há outras em que não. E então, para se defender desse ridículo, o português parece essa pessoa modesta, cordata, que não levanta demasiados problemas, seja aos regimes seja na sua vida particular» Pois é tempo de nos envaidecermos do que é nosso e não termos medo de reagir aos imbecis e aos pusilânimes.

domingo, 19 de março de 2017

Sugestões para a semana

Livros

«Carnaval no fogo», Ruy Castro, Tinta da China, 237 páginas. Mais uma magnífica edição sob a chancela de Carlos Vaz Marques com um dos grandes autores brasileiros que melhor retrata a sua sociedade e as suas gentes. Aqui a história do Rio de Janeiro, uma leitura agradavelmente açucarada.

«A República da Máfia», John Dickie, Edições 70, 547 pág. Toda a história dos primórdios da Cosa Nostra, Ndrangheta e Camorra. Ritmado, factual, extremamente interessante.

«A dama do lago», Raymond Chandler, Colecção Vampiro, 286 pág. Saudei na altura o regresso deste clássico que é a colecção Vampiro que reunia uma série de grandes autores de policiais. É o segundo volume que publicam de Chandler, Marlowe é irresistível, é um deleite de escrita a cada página.

Cinema

Em casa, sublinho esta noite na 2, à Meia-Noite, "Alemanha, Ano Zero", de Roberto Rosselini, um dos seus filmes do tríptico sobre o pós-guerra.
No TVC2, na quinta às 22h, mais um do ciclo dos baseados nas peças de Tennessee Williams, "Corações na penumbra" de Richard Brooks.
Em sala, recomendo esta semana que a Cinemateca continua a dedicar ao ciclo integral de Ernst Lubitsc. Pelas 18h Hans Hurch, todos os dias, explica a genial obra do grande cineasta.

Séries

Recomendo a estreia da terceira temporada de American Crime no TV Séries na terça.
Sugeria também que dessem mais atenção a uma boa série portuguesa na RTP1, "A filha da Lei", que para os meios que tem está bem realizada e na RTP 2 os últimos episódios do thriller sueco "Jordskott"

Documentários

Na TV5 espreitem o habitual Mediterraneo sobre a cultura dos povos que circunda o mar e um programa muito interessante que passa na madrugada de sexta, "300 millions de critiques", o mundo da cultura vista por vários ângulos dos que falam em franc~es

Exposição

Ainda têm muito tempo para irem à Gulbenkian verem a notável exibição da arte de Almada negreiros

Restaurante

O único restaurante que frequento dentro de um centro comercial é o do meu amigo Manuel fernandes, "O Madeirense", nas Amoreiras, toda a boa gastronomia, e simpatia, que vem daquela ilha tão simpática  

Medina, Cristas e a amiga de Vale e Azevedo

O meu artigo desta semana no ECO que pode ler aqui.

5 histórias de pessoas que precisam de silêncio

Paulo Macedo – tem o trabalho da sua vida. Pacificar uma marca, dar tranquilidade aos milhares de funcionários, tirar a Caixa Geral de Depósitos do abismo negro (2 mil milhões de prejuízos) em que quase durante um ano esteve ingovernável, enquanto fazia manchetes e gerava histórias que nada têm que ver com a sua actividade que é essencial para o desenvolvimento da economia. Pede-se silêncio para que tudo volte aos eixos.
Carlos Costa – teve de dar explicações, notas e entrevistas para “damage control” dos danos reputacionais que a instituição que tutela sofreu após a excepcional reportagem da SIC. O Banco de Portugal (BdP) e o seu Governador foram completamente chacinados mediaticamente após todos os portugueses terem percebido que as estações mudam, o sol volta a qualquer momento, os dias nascem, mas só no BdP nada muda. Costa, o Carlos, sentiu a pressão da opinião pública e decidiu falar durante uma semana. Já chega, o silêncio é uma imagem de marca do BdP. E ser mais assertivo no combate às disrupções do sistema financeiro também devia ser. Não é,
Marcelo Rebelo de Sousa – Um ano do Presidente que é a «princesa do povo, como a princesa Diana», como vi numa reportagem do Expresso. É certo que, para mim, Belém ganhou com este ano de magistério de afectos, ternura e simpatia em comparação com a Presidência de museu de cera do seu antecessor. Porém, mais de 976 mil selfies e um excesso de declarações, a torto e a direito, muitas sem sentido e sem sentido de Estado, levam a pedir mais contenção a Marcelo. Pois já todos percebemos que o seu pecado original é a falta de momentos para respirar silêncio.
Jaime Nogueira Pinto – tornou-se notícia esta semana por patetice de umas criancinhas e cobardia de um Caramelo. O comentador estava num limbo de inexistência, do qual já ninguém se lembrava muito bem, a publicar uns livros que ninguém lê e a ser consultor de uns negócios relacionados com África. Causou ruído porque não o deixaram falar e o seu caso é uma evidência da classe com que um elefante atravessa uma loja de porcelanas. O “elefante” desta história ridícula não é o Jaime, mas sim o bando de criaturas da associação de estudantes que devia estar quieta. Sim, é tempo dos patetas se dedicarem a cultivar o silêncio.
Marques Mendes – os seus comentários não me interessam rigorosamente nada e têm para mim a credibilidade de uma ervilha. Este senhor tem um espaço que mais ninguém tem em nenhuma televisão generalista no mundo inteiro. Dizem que tem um milhão de audiências, mas, nas sondagens internas do seu partido realizadas com o seu nome para Lisboa, é barbaramente sovado por Medina e Cristas, o que prova que as pessoas não gostam dele e até o Rato Mickey teria um milhão de espectadores para o verem comentar os seus interesses pessoais. Esta semana, mais uma vez, os espectadores aguardam que ele preste esclarecimentos, e que a jornalista lhe faça perguntas, sobre o papel que teve nos vistos Gold (será ouvido por testemunho escrito em tribunal) e em empresas das quais era sócio com Miguel Macedo e outro indivíduo e que até serviços prestava a empresas de jardinagem. Se não esclarecer nada, que tenha a vergonha de se calar.

terça-feira, 7 de março de 2017

O meu nome não é Doce

Tenho aqui o meu blogue e escrevo em redes sociais desde 2009 (na imprensa escrevo desde 1995). Ontem percebi porque nunca ninguém tentou comprar um post escrito por mim. É que o meu nome do meio não é Doce.

Mais mulheres, se faz favor

Eu defendo o talento, o mérito, sou contra qualquer tipo de quotas impostas por ditame de uma qualquer lei ou regulamento. Porém, continuam a ser poucas as mulheres em diversos lugares de topo em Portugal.

Talvez sejamos, e são vários os sinais visíveis no dia-a-dia, uma sociedade conservadora, com enormes preconceitos, com uma imagem difusa e pouco dinâmica do que são as comunidades modernas e os seus movimentos sociais. Ainda muito machista por herança de um «marialvismo» bacoco que ainda alguns tendem a ostentar.

Esta semana, no Negócios, lia que das 17 empresas cotadas no PSI-20, apenas cinco têm mulheres nas suas comissões executivas. Num total de 82 gestores, só oito (10%) são do sexo feminino. São elas Cláudia Azevedo e Ivone Pinho Teixeira (Sonae), Dionizia Ferreira e Ana Maria Jordão (CTT), Maria da Conceição Lucas (BCP) Laurentina Martins e Ana Rebelo Mendonça (Altri) e Ana Paula Marques (NOS), cito-as pelo seu valor e para elogiar as empresas que não hesitam em escolher mulheres para os seus conselhos de administração.

Ontem, o Público fazia manchete com a exigência do Governo ao Banco de Portugal de integrar mais uma mulher nos seus lugares cimeiros onde, para já, só está Elisa Ferreira. Esta semana, Mónica Ferro foi escolhida, e já elogiada por Belém, Governo e todos os quadrantes políticos, para um importante cargo no Fundo das Nações Unidas para a População, depois de um meritório trabalho ao serviço da comunidade, e sem politiquices, que tem desenvolvido pelos direitos das mulheres.

Eu gosto de mulheres. Sei como a maneira delas de estar no mundo, de encarar os problemas, é diferente da dos homens. Com uma sensibilidade e um olhar que não é antagónico mas complementar. «A mulher está muito perto da Natureza, há nela os mesmos encantos e os mesmos perigos», dizia o nosso sábio, tantas vezes esquecido, Agostinho da Silva.

O mundo seria incompleto sem as mulheres. É tempo de se ousar, não sendo nenhuma ousadia, apostar mais nelas. Ainda subsiste em muitos homens aquela mentalidade do personagem anquilosado e retrógrado de Fernando Rey, no “Tristana” de Luis Buñuel, de que a mulher deve estar em casa e, de preferência, calada.

Há mulheres que, por timidez ou vontade, optam por se resguardar, algumas ainda retraídas pelo pecado original de uma sociedade dominada pelos homens. Mas não devemos cortar as asas a quem pretende voar, a quem quer mostrar o seu talento e desenvolver a sua ambição profissional. São bem-vindas e todos ganhamos com isso. Por isso, não hesitem: mais mulheres, se faz favor.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Sugestões para a semana

Livros

"A forma das ruínas", Juan Gabriel Vasquez, Alfaguara, 571 páginas. Para já o melhor livro editado neste ano. Sou um apreciador deste escritor colombiano, já tinha lido o soberbo "As Reputações" (que recomendo) e "O barulho das coisas ao cair", tem uma escrita ritmada, excelente construção de diálogos e neste livro surge um personagem fascinado por teorias da conspiração que marcam a história da Colômbia e dos Estados Unidos.

"Heinrich Himmler", Peter Longerich, D. Quixote, 911 pág. Comprei na última semana de 2016 esta biografia considerada um dos melhores livros do ano pela mais reputada crítica mundial. É fabulosa, bem escrita, sem se perder nos detalhes dos quais é muito rico o livro, e descreve um homem fraco, que fez mal ao mundo, e que nada tinha de brilhante. Apenas a sua determinação em sobreviver o levou a um dos cargos mais altos no partido nazi. É imperdível.

Cinema

Na televisão, o filme da semana passa amanhã no TVC2 ás 22h, "Se as montanhas se afastam", de Jia Zhang-Ke, um retrato poderoso e sublime da China contemporânea.
A comprar esta semana com o Público, o realismo de "I, Daniel Blake", do Ken Loach, o melhor de 2016.
Na Cinemateca o ciclo integral, que se prolonga até Abril, de Ernst Lubitsch, um dos padroeiros da Sétima Arte, e chamo a atenção que durante uma semana terão a oportunidade de viver a experiência que muitas pessoas tiveram nas primeiras décadas de Hollywood com os filmes a serem acompanhados ao piano. Vejam no site da Cinemateca o cartaz.

Séries

Perto da primavera começam a aparecer as séries de qualidade. Já estreou Billions na segunda temporada, passa ao sábado à noite, a excelente mini-série "Big Little Lies" segundas 21.45h, com Reese Whiterspoon e Nicole Kidman. E em homenagem ao Bill Paxton que morreu esta semana espreitem a série de acção Training Day baseada no filme com Denzel Washington e Ethan Hawke. Todas estas séries estão no TVSéries

Documentário

Na RTP2 passam excelentes documentários, recomendo que deixem a gravar por volta das 12h, diariamente, "Mundos Secretos". Para quem gosta de arqueologia e do estudo das velhas grandes civilizações vão ter muito prazer.

Restaurante

Duplex no Cais do Sodré. Cozinha requintada com experiências diversas, bom ambiente, serviço muito simpático.

Os erros da Caixa e as Offshores da vergonha

Dois temas marcam a agenda: as trapalhadas da Caixa Geral de Depósitos e os 10 mil milhões que voaram para Offshores, esquivando-se à nazi máquina fiscal portuguesa. A propósito deles, deixo várias notas.
O erro político na CGD – Ninguém tem dúvidas hoje que a escolha e nomeação de António Domingues (AD) foi um enorme erro de cálculo, causando ao Governo a sua maior crise, do qual o mesmo é o principal responsável. Lição a tirar – uma bomba atómica não pode circular pelas ruas sem causar danos.
O erro dos comentadores sobre AD – Para quem não acompanha a banca, quando se anunciou AD, foi quase uma garantia de excelência na futura gestão da CGD. Não houve comentador que não rasgasse elogios, tirasse o chapéu ou se referisse a ele como uma sumidade dos números. Lição a tirar – vejam quem são os comentadores que dizem estas coisas, e depois lembrem-se se eram os mesmos que endeusaram Ricardo Salgado, mas que no dia da sua queda eram as primeiras das hienas. Vão ver que são os mesmos. E as hienas não são credíveis.
O erro de bom senso de AD – vamos ser claros, houve uma enorme dose de falta de bom senso de AD. Se ele fosse nomeado administrador de qualquer outro banco, ninguém tinha a nada a ver com o património e interesses dele, isso é matéria para os respectivos accionistas. Agora, os accionistas da Caixa são todos os portugueses, quem quer ir para lá, quem quer que seja, tem obrigação de transparência e de mostrar a sua declaração de rendimentos e património. Ponto. Lição a tirar – todos os ídolos têm pés de barro, se querem esconder alguma coisa não aceitem lugares de exposição pública.
O erro de percepção mútua – em domínios de transparência não pode haver negociações. Não sei quem mentiu, se AD ou Mário Centeno, porém, é evidente a falta de tacto político do ministro, que me parece competente e uma pessoa de bem, mas que não pode deixar enredar-se como um garoto nestas teias onde é visivelmente ingénuo. Lição a tirar – algo que já aprendi há muito tempo: Pinóquio não mente, o nariz é que cresce muito.
O erro de carácter de AD – um ex-MRPP, homem que defendia naturalmente o proletariado na sua juventude, tornou-se segundo consta uma criatura com 4 milhões no banco, um barco em Vilamoura e casa de luxo no centro de Lisboa. Apesar disto, ainda fomos todos nós portugueses, que não vivemos um clima de abundância, a pagar-lhe os advogados. É lamentável a sua falta de vergonha. Lição a tirar – no MRPP, ele e Durão Barroso, por exemplo, aprenderam que há 156 maneiras de ser um pulha. E ele sabe-as todas.
As Offshores da vergonha – esta semana soubemos que 10 mil milhões de euros voaram para Offshores, escapando à verdadeira Gestapo que é a Autoridade Tributária portuguesa. A mesma que é exímia a vasculhar os cêntimos nas facturas de manicures e merceeiros, que vê à lupa contas de micro empresas, que chateia e emperra a vida de pequenos empresários. Mas 10 mil milhões não conseguiram detectar. Para lá disto, o palerma inculto que se acha engraçadinho, Paulo Núncio, que tutelava a AT quando era secretário de Estado, já veio dizer que não teve conhecimento de nada, é o marido traído desta triste história. Pois, é natural. Exigiram sacrifícios a todos os portugueses que se esforçam por cumprir, especialmente os mais humildes, e depois cai-lhes a máscara. Lição a tirar – ser forte com os fracos é uma virtude dos canalhas. Os bandalhos andam de joelhos perante os mais fortes.

Marcelo tornou-se o maior inimigo de si próprio

Se perguntarem a qualquer português se gosta de ver Marcelo em Belém, tenho a certeza que a generalidade daria uma resposta positiva, inclusivamente muitos que não votaram nele. Só que a sua excessiva exposição, a incontinência mediática, levam a uma série de intervenções que minam o seu próprio caminho.
Marcelo Rebelo de Sousa mantém uma popularidade inabalável, mas perdeu o estado de graça pois está a «ficar mal com todas as forças políticas», como esta semana disse Pedro Santana Lopes, que tem elogiado vastíssimas vezes o Presidente da República (PR), no seu comentário na SIC. Quais são então as razões para o sortilégio de ter começado o tiro a Marcelo?
Por um lado, muitos eleitores do PSD entendiam que ele não demoraria muito tempo a desfazer a geringonça, criando a oportunidade para que Passos Coelho voltasse ao poder. E não convivem bem com o facto de um seu militante e ex-líder seja o maior apoiante da solução governativa congeminada por António Costa, um apoio que funciona quase como um salvo-conduto para a legitimidade que não obteve directamente com uma vitória nas urnas.
Por outro lado, entre PS-PCP-BE, que sempre elogiaram a maré de paz e uma coabitação quase perfeita com Belém, caiu mal a intervenção de Marcelo no caso Centeno, sentindo que um Presidente não deve interferir na acção governativa. Sejamos claros: um PR não existe para deitar Governos abaixo, mas sim para ser um vigilante activo das instituições democráticas, criar um ambiente saudável dos portugueses relativamente aos poderes públicos e gerar consensos para que tudo corra bem a Portugal.
«Um filme só com clímaxes é como um colar sem fio, desfaz-se. É preciso ir construindo até nos grandes momentos. E às vezes devagar». Estas palavras são de “The Bad and the Beautiful” (Cativos do Mal, em português), um filme de Vincente Minnelli. É que a presidência de Marcelo é diariamente uma construção de clímaxes, simpáticos, afectivos, até ao dia em que surge o verdadeiro momento de confronto institucional e, aqui, nem a sua enorme popularidade lhe traz qualquer almofada de conforto numa querela com todos os interlocutores partidários.
Ao contrário dos ultramontanos sociais-democratas, eu não tenho quaisquer saudades de Cavaco Silva e muito menos da sua rede clientelar do cavaquismo que ungiu uma série de medíocres e os transformou em milionários. Mas cumpre a Marcelo entender que já não é comentador, é o Chefe de Estado. Que um abraço a quem precisa é tão significativo como dar uma palavra mais dura, mas sem interferir no normal trabalho diário das instituições.
Porque Marcelo não demite ministros, isso cabe ao Primeiro-Ministro, a ele compete apenas aceitar a sua designação ou demissão sob proposta de António Costa. E é tempo de perceber que tem de vestir as vestes franciscanas do recato mediático mais vezes.
No “Sacrifício”, de Andrei Tarkovsky, perguntava-se: «É difícil viver no silêncio?». Claro que é. E nestes tempos de turbilhão de novidades ao segundo das redes sociais ainda mais. Mas o silêncio é uma das melhores armas em comunicação. Porque é muito difícil combatê-lo e arranjar argumentos contra ele. Chegou o momento de Marcelo fugir aos microfones, sob pena de se tornar o maior inimigo de si próprio.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Há petróleo em Lisboa

O meu artigo desta semana no ECO é sobre turismo e sobre Lisboa, pode ler aqui.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

O turismo em Lisboa

O turismo é bom para Lisboa. Se não houvesse turismo a nossa economia ressentia-se. O turismo é o nosso ouro negro. Estas são três verdades evidentes e só quem está de mal com a vida não vê.

Mas há uma variável nesta equação para este casamento ter sucesso, é que não se podem esquecer os lisboetas que vivem em Lisboa. Não se pode mudar a cara de uma cidade só para se agradar aos turistas, até porque quando isso acontecesse, e se a descaracterizassem, os próprios turistas deixavam de gostar dela.

De resto, os lisboetas recebem bem e gostam de turistas a circular e a enriquecer também a sua cidade. isso é tão óbvio que podiam poupar o dinheiro gasto em estudos.

Os vergonhosos pais de Maddie

Os pais da Maddie McCann são dos elementos mais frios, mais sinistros, mais bizarros que me lembro na minha vida.

Ontem, e bem, o CM dá-lhes manchete para expor toda a sua filha da putice para público e crítica. Estas criaturas vendem «exclusivos da dor» por 100 mil euros no Reino Unido e 400 mil nos EUA.

A partir de hoje era nunca mais darem um segundo de atenção a estas almas desgraçadas, pais canalhas que exploram a inexplicada(?) morte de uma criança que teve o azar de ser filha desta gente sem espinha dorsal.

O mundo era bem melhor sem estes dois répteis.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Marcelo matou Cavaco

Todos já viram “O Padrinho” e por isso facilmente se recordam que o “consiglieri”, Tom Hagen, costumava avisar que «Mr. Corleone é um homem que insiste em saber logo as más notícias». Nós, portugueses, sem o querermos nem desejarmos saber, tínhamos quase todos os dias más notícias durante os tempos do Governo PSD/CDS e de Cavaco Silva.

Não cabe neste artigo analisar a bondade dessa governação ou os estados de alma que eram ciciados de Belém, o que registo é que, na sua generalidade, os portugueses estavam fartos de más notícias e do clima telúrico que se instalou no nosso País. E um dos principais factores de desalento com os políticos e o ambiente confrangedoramente triste que se vivia, passava pelos penosos últimos anos e dias de Cavaco Silva em Belém.

Eu não sou nem de esquerda nem de direita, não tenho partido, não sou fanático de Marcelo Rebelo de Sousa, nem votei nele, por isso ainda mais à vontade estou para escrever livremente sobre a maneira como tenho gostado da sua actuação. O seu magistério não é o de influência é o dos afectos. Em cada gesto de Marcelo há vida, há esperança, há sentimentos positivos, contrastando com uma figura de cera que diariamente ia perdendo o seu brilho e credibilidade.

Marcelo é gente, gosta das pessoas, dá beijinhos e abraços, semeia uma alegria contagiante, enquanto Cavaco se ia perdendo no labirinto da sua solidão, da sua misantropia. Marcelo percebeu que os portugueses precisavam do seu abraço e do seu optimismo, depois de vários anos fustigados pelo chicote da austeridade e dos números sem alma. Sim, a política são as pessoas, a política é lutar todos os dias por melhorar a vida das pessoas. E é tempo da política se impor aos balancetes e às contas de merceeiro.

Quem conhece Marcelo sabe do seu gosto por partidas e algumas traquinices. Todos sabemos que foi o palco da TVI que lhe granjeou a estima e a simpatia dos portugueses, a sua imagem de “professor” impôs-se na percepção das pessoas ao seu lado instável e hipocondríaco.

Do melhor romance editado em 2015, “Assim Começa o Mal”, de Javier Marias, retiro a seguinte passagem: «Há aqueles que desfrutam com o engano, a astúcia e a simulação, e têm uma enorme paciência para tecer as suas redes. São capazes de viver o longo presente com um olho posto num futuro impreciso que não se sabe quando vai chegar». Porque também há todo este lado num político hábil como Marcelo. Demorou 15 anos a cumprir o seu sonho, mas ele ali está, com toda a naturalidade, em Belém com índices de popularidade que agregam todos os segmentos sociais e todas as facções partidárias.

No início do seu mandato, Marcelo foi convidado para fazer a apresentação de uma iniciativa muito válida da estação pública de televisão, o regresso dos Livros RTP. Aconteceu na livraria Bucholz, eu estava presente, e no final comentei para o seu assessor de imprensa, o Paulo Magalhães, que era toda uma diferença para o seu antecessor estar a falar de improviso, com humor e sabedoria, a reviver as suas memórias dos tempos que ali passou em animadas tertúlias com outros grandes nomes da língua portuguesa e com carinho evidente pela literatura, pelas artes, enfim, pela promoção e divulgação da nossa cultura que deve ser matriz essencial dos inquilinos de Belém.

Marcelo dá confiança e sente-a retribuída pelos portugueses. É certo que ainda não se deparou com fortes tempestades institucionais, mas tem contribuído para uma estabilidade que acalma e tranquiliza as pessoas e os mercados. Não sabemos o dia de amanhã, apenas tenho a certeza que Marcelo já empurrou Cavaco, de quem ninguém tem saudades, para um triste rodapé da nossa História. Mais que não seja, neste ano de mandato o mais positivo de tudo é que Marcelo matou Cavaco.

(Meu artigo no ECO)

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Papa Francisco para CEO do mundo

O meu artigo no ECO que pode ler aqui.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Marques Mendes: o novo Zandinga

A minha geração e os mais velhos lembram-se do Prof. Lesagi Zandinga. Perto do final do ano, e só nesse dia, a RTP entrevistava-o para ele fazer as previsões para o ano seguinte.

Anunciava um político que ia morrer, acidentes, cataclismos, mas o povo ficava a matutar e a tentar adivinhar quem seriam as vítimas das previsões. Isso acontecia porque ele só aparecia uma vez por ano.

A coisa agora banalizou-se e todos os domingos o "vidente de Fafe" encarna na SIC o papel de Zandinga. A coisa banalizou-se tanto que Marques Mendes já só tem a mesma credibilidade do prof. Bambo, do Prof. Herrero ou do Herculano Quintanilha ( "O Astro", novela brasileira).

Não é astrólogo, nem bruxo, nem vidente, é apenas o bobo da côrte. Uma triste figura. O problema é que ainda lhe dão importância e ele acha-se muito importante como um qualquer Napoleão no manicómio. Os tempos do Prof. Lesagi Zandinga também eram bem melhores. Bons tempos.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Eu matei John F. Kennedy

O meu artigo no ECO desta semana é sobre a importância do jornalismo. Pode ler aqui.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

O fracasso de Sérgio Monteiro

Deram um ano a Sergio Monteiro para arranjar comprador para o Novo Banco. Não conseguiu. Deram durante esse ano 25 mil euros líquidos por mês a Sergio Monteiro para arranjar comprador para o Novo Banco. Mas isso ele conseguiu.

Apesar dos seus resultados serem Zero, meteu 25 mil euros líquidos por mês ao bolso. Sergio Monteiro está envolvido, enquanto secretário de Estado do Governo de Passos Coelho, em várias negociatas, em várias privatizações, sobre isso não sei nada. Sei apenas que é um incompetente.

Foi um desastre como Oliveira da Figueira do Novo Banco. Só que a personagem de Tintim era engraçada, enquanto Sergio Monteiro não tem graça nenhuma. É um incompetente que durante os próximos anos vai continuar a ocupar lugares de relevo como se nada fosse com ele.

Em Portugal promovem-se medíocres a estrelas, em Portugal um incompetente que é estrume parece que é ouro. A Sergio Monteiro souberam muito bem os 25 mil euros líquidos por mês que mamou durante um ano para apresentar uma mão cheia de nada.

Se tivesse vergonha, nunca mais aparecia em lado nenhum. Como não tem vergonha, vai continuar a espalhar a magia da sua incompetência à frente de todos. Um nojo.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Kim Kardashian e Maria Leal: uma sociedade doente

O meu artigo no ECO para ler aqui.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Mário Soares

A maior bofetada de luva branca de Mário Soares em todos os que em vida o combateram com respeito e, sobretudo, nos energúmenos que, depois de internado e agora já morto, rejubilam e escrevem sobre ele o que não se escreve sobre ninguém que parte, é que foi ele um dos máximos obreiros que possibilitou a pessoas de bem e a energúmenos escreverem livremente, sem censura nem algozes, o que bem lhes apetece. Sim, Mário Soares é sinónimo de Liberdade. Errou muitas vezes, e eu já escrevi sobre isso, mas todos os homens livres agradecem a Liberdade em que vivem. Eu, sou grato.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Os 12 melhores livros de 2016

Os 12 melhores livros que li e que foram editados em 2016 (e ainda acrescentei mais 6 que não são deste ano). Vários deles fui destacando ao longo dos meses.

- "O Ruído do Tempo", Julian Barnes (Quetzal)
- "Vozes de Chernobyl", Svetlana Alexievich (Elsinore)
- "Bússola", Mathias Enard (D. Quixote)...
- "Breve História de Sete Assassinatos", Marlon James (Relógio D' Água)
- "A Bíblia- Novo Testamento, vol.1", Frederico Lourenço (Quetzal)
- "O Czar do Amor e do Tecno", Anthony Marras (Teorema)
- "Pátria", Fernando Aramburu (Planeta, edição espanhola)
- "A Vida como ela é", Nelson Rodrigues (Tinta da China)
- "À Beira do Abismo, a Europa 1914-49", Ian Kershaw (D. Quixote)
- "Como ver um filme", David Thomson (Bertrand)
- "Onde Todos Observam", Megan Bradbury (Elsinore)
- "Manual para Mulheres da Limpeza", Lucia Berlin (Alfaguara)

A esta lista, não sendo edições de 2016, quero acrescentar mais seis livros fabulosos que li este ano: a tetralogia de Nápoles de Elena Ferrante, "A Amiga Genial", "O Mapa e o Território", de Michel Houellebecq, e de Ivo Andric, "A Ponte sobre o Drina" da Relógio D'Água.