terça-feira, 27 de setembro de 2016

Trump e a Lady Macbeth

Há muitos anos, durante a crise do vestido azul de Monica Lewinsky, numa coluna de opinião sobre política internacional que mantinha no Semanário, chamei Hillary de "Lady Macbeth", a mulher que encarnou a perfídia pelo poder escrita pelo autor que ao longo dos tempos melhor percebeu a natureza humana: William Shakespeare.

Hillary é uma mulher preparada, inteligente, mas gosta muito mais do poder do que o marido Bill, um grande presidente americano. Hillary tem características de liderança, tem o "killer-instinct" de um candidato, mas, apenas e só, as pessoas não gostam dela, melhor, não confiam nela. Hillary é a candidata que tem tudo para ganhar, mas é fria, não transpira emoção, não tem paixão nem apaixona.

Por isso, qualquer pessoa que esteja a acompanhar regularmente a campanha americana, e não tenha apenas despertado para o assunto no debate desta noite, tenha reparado que ela, sempre que entrava num palco, abria muito a cara para a plateia, sorria muito, dizia muito adeus para as pessoas, tentando criar uma ligação, uma empatia, que, naturalmente, não consegue transmitir porque os americanos não gostam dela e, em 2008, nem um tipo genial como o Mark Penn, seu estratega de campanha, e maior especialista em «micro trends» do mundo, conseguiu dar a volta a isso. E, em 2016, nada mudou.

Donald Trump apenas é a voz dos americanos que nunca puderam dizer nada na cara da classe política e, isso, nos dias de hoje tem mais valor do que se pensa, num mundo onde todos, inclusive idiotas, têm tribunas nas redes sociais onde podem dizer todos os disparates do mundo.

Trump tem mais apoio do que se pensa, há muita gente que diz que vota nele em surdina mas que não o assume em público porque parece mal e é politicamente incorrecto. E nestas eleições os europeus não votam e os americanos nada têm a ver com os cidadãos do nosso continente. E as sondagens assim o dizem, quando demonstram quase, neste momento, um empate técnico entre eles.

Trump não tem preparação, verdade. É um monte de ideias ao molhe, sem estarem sistematizadas. Mente, é politicamente incorrecto, mas os americanos percebem o que diz porque tem duas ou três ideias fortes que caem no goto duma sociedade quase analfabeta. Porque Nova Iorque, Boston, são ilhas na realidade de um território díspar.

Ambos são os candidatos menos populares da história das campanhas eleitorais americanas. O mundo assustado por uma série de disparates globais tem medo de Trump, mas vê apenas Hillary como um mal menor. Em qualquer dos casos o mundo será completamente diferente, em qualquer dos casos o mundo não será mais tranquilo. 

domingo, 25 de setembro de 2016

Sugestões para a semana

Livros

"Uma Estranheza em Mim", Orhan Pamuk, Presença, 633 páginas. Ainda nenhum suplemento especializado nem jornal deram destaque ao lançamento do novo livro do Nobel turco, um dos meus escritores preferidos, que tem obra excepcional como "Istambul", "Neve", "My name is Red", "O Museu da Inocência" e que aqui volta ao seu território de eleição, ao cenário que melhor conhece, a sua Istambul, e as mudanças e evoluções que ali aconteceram entre 1969 e 2012.

"A Vida Como Ela É", Nelson Rodrigues, Tinta da China, 372 pág. Era para mim absolutamente incompreensível como nenhuma editora portuguesa dava à estampa a fascinante obra deste brasileiro que conhecia as ridicularias da natureza humana, os adultérios e os cornos sem complexos, construía uma galeria de personagens que podíamos identificar no nosso bairro (basta ver os nomes dos personagens para sorrir). Eu tenho a colecção toda dele (e até do que editou sob o pseudónimo Suzana flag), editada pela brasileira Companhia das Letras, e comprei este da Tinta da China porque é marcante e a edição é magnífica.

"O Silêncio do Mar", Yrsa Sigurdaddotir, Quetzal. Há umas semanas sugeri um policial, género que gosto, e salientei que este ano não tinha havido excepcionais livros lançados nesta área em Portugal e disse que indicaria um que me surpreendeu. Este de uma das escritoras islandesas que mais vende, tem o condão da acção ter como cenário um barco que sai de Lisboa com 6 pessoas e entra no porto de Reiquejavique sem ninguém. Um mistério envolvente e bem contado.

Cinema

Em casa, actual, aconselho "O Abraço da Serpente", de Ciro Guerra, nomeado para óscar de melhor filme estrangeiro e que há pouco andava em sala, dá TVC2 na quinta, 22h.
Recomendo na terça de madrugada, 1.50h e 7.15h, "Cativos do Mal" (The Bad and the beautiful) e "Duas Semanas noutra Cidade", o primeiro é genial, e recomendo-os porque fizeram parte de um ciclo integral de homenagem ao grande Vincente Minnelli que a Cinemateca organizou em Maio e Junho.
Em sala, Pedro Almodôvar é Pedro Almodôvar, passados dois filmes medíocres e que nada lhe acrescentam na sua brilhante filmografia, agora está "Julieta", a ver sem hesitações.

Séries

Ainda não começaram as grandes estreias nos nossos canais de séries, hoje arranca a segunda temporada da série de acção Blindspot no TVC Séries e recomendo, ainda esta semana escrevi sobre as 4 séries que a RTP lançou, a melhor delas, "Dentro", drama prisional que vale a pena ver.

Documentário

Já tinha recomendado no Netflix o sensacional "Chef`s Table" que mais do que uma série de culinária é sobre histórias de vida e cultura de diversos países. É um regalo para os olhos, vejam ambas as temporadas.

Restaurante

Cada vez mais valorizo restaurantes de comida portuguesa, onde me sinta bem tratado e que não me passe pela cabeça que esteja a ser vítima de um assalto à mão armada com a relação qualidade-preço que é praticada. O Entre Copos, na rua de Entrecampos é assim, ainda por cima como lá vou bastantes vezes, já conheço o senhor que grelha o peixe e já vou vendo o que vale mais a pena. Ao almoço tem dias que só marcando mesa.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

As novas séries da RTP

Eu mantenho que Portugal, e sobretudo a RTP, deve na indústria do audiovisual ter uma aposta consistente na produção de séries, como alternativas de qualidade às telenovelas.

Como aqui escrevi, os hábitos de consumo em televisão são conservadores, e os programadores, por comodismo e por os resultados serem mais visíveis, mantêm as velhas fórmulas das novelas no prime-time. Mas, como vemos todos os dias, há cada vez mais público a  fugir para o cabo e outras plataformas, por exemplo, o Netflix.

Há um consumidor mais esclarecido, também jovem e urbano, que já não tem pachorra nem perde tempo com novelas e reality-shows que inundam os nossos canais generalistas. Por isso, saudei a coragem da RTP em apostar em séries contra o monopólio das novelas. Sabendo bem, como escrevi na altura, que as audiências não iam ser relevantes e podiam ser más face aos hábitos instituídos. Assim sendo, e passadas três semanas, o meu balanço e depois umas palavras de optimismo na conclusão:

Na terça, "Mulheres Assim". É tão má, tão ridícula, que nem vale a pena comentar. E há uma coisa que não podem esquecer e que entendo ser uma das maiores pechas nesta fase embrionária da construção de uma indústria de séries portuguesas: a direcção de actores para série de televisão não pode ser a mesma coisa para novelas nem para teatro, onde continuam visíveis os mesmos tiques. Depois, estejam atentos um bocadinho ao pormenor, levem alguns actores ao dentista e invistam num branqueamento, isto é de um amadorismo sofrível.

Na quarta, "Os Boys". É conhecido que, por esse mundo fora, a aposta em séries que abordem o tema da política e do poder resultam bem. Não falo das de registo dramático que todos conhecem como "House of Cards" (e a primeira versão inglesa já está disponível no Netflix e sugiro), "West Wing", "Borgen", "Os Influentes" (as duas últimas transmitidas na RTP2) e a menos conhecida, mas sensacional, "Boss" (apenas com duas temporadas), também no humor e na sátira temos a premiadíssima "Veep" e a mais antiga "Spin City" por exemplo. Por cá apostou-se no humor. Uma das coisas que mais gosto é o seu genérico, depois o primeiro episódio não gostei muito e senti os actores muito presos e desconfortáveis, sobretudo a personagem principal do filipe Duarte que, para mim, juntamente com o Ivo Canelas, é o grande actor português. Tem melhorado, não sei se o público português compreende tudo o que ali está escrito, como exercício de humor não atinge todos os objectivos, mas mais uma vez é um primeiro passo.

Na quinta, "Dentro". Trama prisional que para mim é a melhor das quatro proposta da RTP. Tem um elenco homogéneo, tem falhas naturalmente, mas parece-me a série mais consistente e com mais pernas para andar. Depois, tem a melhor personagem e a actriz, Vera Kolodzig, vai excelente nesse papel, das quatro séries. Não é nenhuma "Orange is the New Black", até porque o registo, aqui, é dramático, mas até pode dar mais temporadas.

Na sexta, "Miúdo Graúdo". A ideia é engraçada, o tema é o mais universal, é uma série de família, mas peca por um erro crasso. O horário e o dia em que é emitido, Na sexta, o mind-set das pessoas é outro e o horário ideal seria ao sábado ou domingo de manhã.

Concluindo, houve um tempo em que uns tipos meio loucos decidiram ir morder os calcanhares da máquina de produção de novelas da Globo, que dominava a RTP no tempo do preto e branco, e decidiram produzir a "Vila faia". Um passo decisivo e marcante para o que hoje é a nossa poderosa máquina de produção de novelas. A RTP, com estas séries, dá o primeiro passo consistente na construção de séries portuguesas, com actores, técnicos e guionistas portugueses. Um dia diremos que esta aventura embrionária da RTP, se calhar com audiências baixas, com muitas fraquezas, terá sido decisiva para um futuro que se deseja auspicioso e de melhor qualidade.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

A anatomia de um "hater"

Por certo muitas pessoas já apanharam nas suas redes sociais, indivíduos que aparecem a dizer mal de tudo e de todos, sem vos conhecerem de lado nenhum aparecem nos vossos murais também a criticar, habitualmente gente que escreve mal, que ninguém conhece de lado nenhum, que ao espreitarmos os seus murais vemos que pouca gente interage com elas.

Estes indivíduos são "haters", no seu corpo corre-lhes um veneno pérfido, a sua alma é obscura, a sua maneira de estar na vida é doentia. Algumas características são simples de detectar, por exemplo:

Quem gosta de futebol, gosta de ver um bom jogo com jogadores de qualidade. O "hater" não vê futebol, vê apenas os erros dos árbitros e disso faz a sua expressão.

Quem gosta de um programa de troca de ideias, de política por exemplo, quer ouvir gente bem preparada que consiga explicar bem aquilo que diz. O "hater" nem ouve, nem percebe nada do que dizem, mas aguarda na sombra, com a precisão de um assassino principal, o erro (que acontece quase sempre), qualquer que seja, para disparar em seguida.

Quem gosta de comprar revistas socias, gosta das fotografias, de conhecer mais na intimidade algumas pessoas mediáticas. O "hater" tem os olhos do lobo mau, saliva como o mesmo, nem vê o que lá vem, mas morde na primeira oportunidade de dizer mal.

O "hater", ao fim e ao cabo, é um infeliz, gostava de ser o que nunca será, não tem alegria no trabalho nem na sua vida pessoal, alimenta-se do ódio a pessoas que nem conhece. O problema é que há cada vez mais "haters", são resultado, também, de uma sociedade cada vez mais triste e solitária.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

O PS, a Mortágua e o Sérgio Sousa Pinto

Assisti de alguma maneira atónito à tournée de Mariana Mortágua pela rentrée do PS em Coimbra. Aplaudida pela plateia, como um matador que percorre todas as praças à espera de semear simpatias para colher troféus no dia de amanhã, o partido não compreendeu que, apesar dos tempos de grande coligação que se vivem, o seu discurso nada tem a ver com a instituição fundadora da nossa democracia.

O PS é um grande partido de poder, na sua raíz tem, naturalmente, o diálogo com todos os espectros políticos, especialmente com os partidos à sua esquerda, mas a sua matriz, o seu âmago, é o socialismo democrático e a social-democracia. O carácter de grandes homens como Palme, Brandt, Mitterrand que o influenciaram nada têm a ver com o marxismo-leninismo nem com trostskismo.

Se alguém considera o discurso de Mariana Mortágua (pessoa com a qual simpatizo) moderno, está profundamente enganado. Se acham que esse discurso vale votos hoje, amanhã verão que as palmas que lhe bateram, serão punhais no coração. O PS deve dialogar sempre, mas não subjugar os seus princípios, os seus valores democráticos, a uma plêiade de carinhas larocas e aparentemente simpáticas que são o rosto do populismo da esquerda mais ortodoxa mas que é apaparicada pelos media e pelas televisões.

A propósito dos três parágrafos anteriores, quero dizer que conheço o Sérgio Sousa Pinto há muitos anos. Já disse coisas que eu não gostei e, por certo, ele já deve ter odiado coisas que escrevi. Mas tenho muita estima por ele, é um político sério e honesto (e de honestidade intelectual também) e tem substância, algo que nos dias de hoje, em que os políticos cheios de ar temem que a qualquer momento lhes apareça alguém com um alfinete, é de saudar. Além disso, temos uma coisa em comum: dizemos o que pensamos, por muito que isso custe a quem ouça.

Sobre esta questão do PS e Mariana Mortágua escreveu no seu mural e cito na íntegra:
«Lição ministrada do alto do legado histórico do trotskismo ou de uma qualquer seita comunista heterodoxa.
PS, penitencia-te, ainda vais a tempo, junta-te a nós, 1975 é passado, o capitalismo não sobreviverá ao nosso grandioso compromisso histórico.
Esta paródia senil, protagonizada por jovens burgueses cripto-comunistas e habilidosos pantomineiros da velha escola, sairá cara ao meu partido. Já só falta emergir um furioso qualquer, recentemente criado dirigente e ideólogo, ex...plicar que os últimos 40 anos foram governados pela direita - foi esse o problema.
Chegou a alvorada de Abril e a primavera dos povos, versão Madame Tussaut. Não há esganiçado que não bata com a moca da igualdade no chão, para levantar pó e celebrar a morte da direita. Parados no passado a atrasar o futuro e a teorizar a resplandecente justiça social inerente ao socialismo de miséria. Querem reabrir a gaveta onde Soares fechou diferentes caricaturas do Socialismo. Não escondem ao que vêm: superar o modelo. Ora, eu gosto do modelo. Foi construído pelo PS, com tremenda dificuldade, e pela direita democrática. Com o contributo do radicalismo esquerdista nunca se conseguiu construir uma cadeira de pau. Quanto mais o Socialismo».

Concluo que ainda há algumas pessoas que não seguem, por muito bela que seja a música, os acordes de uma qualquer inebriante flauta mágica. E bem.

domingo, 18 de setembro de 2016

Sugestões para a semana

Livros

«O Czar do Amor e do Tecno», Anthony Marra, Teorema, 382 páginas. Livro fabuloso, melhor livro do ano para New York Times, Washington Post, entre outros, a história de um artista, um pintor, que se torna um censor na União Soviético, eliminando de fotografias e pinturas os ditos, no tempo, «inimigos da revolução». A ler e já dei destaque no meu facebook.

«A Guerra Não Tem Rosto de Mulher», Svetlana Alexievich, Elsinore, 392 pág. É o segundo livro, depois das «Vozes de Chernobyl», que é publicado da vencedora do Nobel por esta editora. Este é o primeiro da autora. «Não escrevo sobre a guerra, mas sobre o ser humano na guerra. Não escrevo a história da guerra, mas a história dos sentimentos. Sou historiadora da alma». Depois, é o seu habitual, e genial, estilo de caleidoscópio de experiências que transporta com sensibilidade para o papel.

«Skype com Deus», Bruno Costa Carvalho, Glaciar, 67 pág. Livro que se lê com gosto e num ápice. Tenho grande estima pelo autor, que aqui exercita um diálogo criativo, imaginado com Deus. Alguém não teve já a tentação de agradecer, em tempo de alegria, ou de questionar quando algo corre mal a divindade ou divindades em que acredita? Por Skype vemos que Deus está mais perto de nós e tem quase os mesmos gostos que nós.

Cinema

Em casa, na RTP2, na quarta, 23.20h, um dos mais belos filmes do Peter Greenaway, «Os Livros de Próspero», inspirado na "Tempestade" de Shakespeare.
Sexta, no TVC1, 21.30h, um dos melhores saídos de Hollywood no ano passado: «Sicário».
Em sala, no Nimas, regressa em versão digital restaurada e remasterizada, na quinta, um dos clássicos do cinema moderno: "Taxi Driver", de Martin Scorsese. Tenho a certeza de que quem já o viu umas dez vezes voltará ao escurinho do cinema.

Séries

Na RTP2 estamos já na segunda semana da segunda temporada de «Príncipe», série de produção espanhola, passada em Ceuta, sobre terrorismo e que não sendo nenhuma obra-prima é uma agradável produção europeia e uma boa alternativa.
Na quinta regressa uma espécie de Dallas nó hip-hop e R&B em Empire, na fox Life.

Documentários

Vou chamar-lhe documentário, sabendo que é uma série, mas é uma produção do canal História que se estreia amanhã às 22h. "Barbarians Risings" sobre as diversas civilizações e tribos que atacaram e sucederam ao Império Romano.
No TVC2, na quarta, 19.15h, para aquelas pessoas que gostam de passar o fim-de-semana no IKEA, que tal conhecerem Ingvar Kamprad «O homem que mobilou o mundo», o fundador da conhecida marca sueca.

Bar/Restaurante

Aproveitando o bom tempo que ainda vai continuar, aproveitem o pôr~do-sol e dêem um pulo a uma das ruas mais «cool» de Lisboa, a rua de São Paulo, e logo ali no 218, ao lado do elevador da Bica, vão ter o prazer de conviver com um dos homens mais míticos dos tempos em que o Bairro Alto era bom, o meu amigo Hernâni Miguel, no seu bar Tabernáculo, onde podem comer umas deliciosas tapas e também todos os dias um prato esmerado com qualidade. Tudo acompanhado com um bom vinho da Bacalhoa.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

A Justiça e Sócrates

Primeiro ponto, não sou jurista nem juíz, em termos de técnicas relacionadas com o Direito haverá gente com muita competência para se pronunciar sobre prazos, acusações e outras variáveis no caso de José Sócrates.

Segundo ponto, não pertenço a nenhum partido (nunca pertenci) e, por isso, não sou nenhum guerrilheiro das redes sociais, arena onde, diariamente, vejo gente, verdadeira e não existente, a digladiar-se em mortíferas batalhas campais, onde a arma de arremesso é a verve e a de defesa é a  falta de memória. Assim sendo, o meu comentário é independente, sem ódios cegos e sem irracionalidade.

Eu gostava que em Portugal a Justiça fosse eficaz, que não temesse poderosos nem o dinheiro dos poderosos, que colocasse a ver o sol entre as grades quem inequivocamente rouba, quem prejudica um Pais para se governar com negociatas. A Justiça deve ser cega, independente, sem preconceitos, mas deve ser certeira e não demorada.

Ao prenderem preventivamente José Sócrates durante 10 meses, quem o fez, sabiam que condicionavam percepções - e muitas vezes a percepção é mais importante que a realidade - que haveria uma condenação geral da população mesmo, como acontece, que não houvesse uma clara condenação construída pela máquina judicial.

O certo é que já passaram dois anos e José Sócrates ainda não sabe do que é acusado. Dois anos é muito tempo, como diria uma canção, muitas notícias foram soltas, muitos cenários foram construídos. Eu gostava que, em todos os casos, a Justiça fosse célere, porque nesta altura do campeonato a maior parte dos portugueses já tem suposições, já julgou o ex-Primeiro-Ministro na sua consciência, mas o que é certo é que até agora são só percepções e cenários, enquanto a reputação de um indivíduo, que desempenhou um dos mais altos cargos do país, está nas ruas da amargura.

Agora a PGR dá mais 6 meses para o Ministério Público investigar José Sócrates. É demasiado tempo e a Justiça arrisca-se, ela também, a ficar com a sua margem de erro e reputação de rastos.