domingo, 4 de junho de 2017

Sugestões para a semana

Livros

"As Veias Abertas da América Latina", Eduardo Galeano, Antígona, 466 páginas. A reedição de um clássico de um grande escritor uruguaio, sobre como o seu continente foi delapidado pelo colonialismo e capitalismo. Uma escrita fabulosa, rica de histórias da História.

"Reino do Amanhã", J. G. Ballard, Elsinore, 343 pág. Deste autor criador de "Crash" que deu origem ao filme de David Cronenberg, já tinha noutra altura destacado "Arranha-Céus". Esta é a melhor distopia publicada este ano e retrata o ódio aos imigrantes, como as comunidades se tornam xenófobas à sombra do consumismo.

"Neve Cega", Ragnar Jonasson, Top Seller, 284 pág. Do frio escandinavo têm vindo as melhores criações no género do policial. A personagem de Ari Arason vem da Islândia, mais na linha de Arnaldur Indridason do que de Yrsa Sigurdardottir, os dois mais conhecidos autores daquela ilha. Sobre esta nova saga que surge posso dizer que comecei a ler ontem e acabo daqui a pouco, boa trama, bem ritmada.

Cinema

Na televisão na quinta 22h, no TVC2, "Peço a Palavra", de frank Capra, um dos maiores clássicos do idealismo na política. E na RTP2, na sexta, 23h, a continuação de um mini-ciclo de Ken Loach, que é um realizador que tem obras fenomenais, como "Kes", "I, Daniel Blake", outras interessantes como a que recomendo que ainda vejam nas boxes, na sexta passada, "Spirit of 45" que vi em dezembro na Cinemateca, e outras falhadas como "O salão de Jimmy" que é a que passa dia 9, mas mantenham-se atentos para os que virão.   
Em sala, as três últimas pérolas que passam deste magnífico ciclo de Kenji Mizoguchi, no Nimas, "Intendente Sansho", "O Conto dos Crisântemos Tardios" e "festa em Gion"

Séries

Sei que as atenções actuais estão centradas em Twin Peaks e na 5a temporada de House of Cards, talvez por isso ninguém repare na 3a temporada da série francesa "Os influentes", sobre política e comunicação com a personagem de Simon Kapita, recomendo vivamente. Passa aos domingos na RTP 2 pelas 22.15h

Documentários

Chamo a atenção para "os Anos 80" que tem passado na RTP2 pelas 23h de terças, seguimento, e a sua estrutura é igual, à dos 2Anos 70" da qual já tinha dado nota.

Restaurante

Sítio simpático em Campo de Ourique, mesmo em frente à Casa fernando Pessoa, na Coelho da rocha, está o restaurante Desassossego. Boa cozinha, serviço simpático, pratos surpreendentes, esplanada e boas sugestões de vinhos. para irem espreitar.

Luciana Abreu é mais importante que John Kennedy

O meu artigo no ECO desta semana pode ler aqui

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Sugestões para a semana

Livros

"Conversas finais", Bento XVI, D. Quixote, 285 páginas. Quando teremos em breve a visita do actual Papa a Portugal, li com muito agrado estas conversas do Papa emérito com Peter Seewald, um homem genial, discreto. A sapiência tranquila tão ausente dos dias de hoje.

"Norma", Sofi Oksanen, Alfaguara, 329 pág. O regresso da escritora finlandesa de origem da Estónia. Um romance fabuloso que não atinge o patamar do excepcional "A Purga" que a seu tempo recomendei, mas é um grande livro.

"O Homem Ausente", Hjorth & Rosenfeldt, Suma, 589 pág. Terceiro da saga de Sebastian Bergman, um  grande policial nórdico, e recomendo que leiam os outros dois pois a história é autónoma mas sequencial na vida dos personagens.

Cinema

No TVC3, quinta, 0.15h, um dos melhores filmes sobre jornalismo, de Sidney Lumet
No TVC1, sexta, 2.50, um dos mais interessantes produzidos em Hollywood no ano passado. "Experimenter", de Michael Almereyda, sobre o condicionamento das percepções.
Chamo já a atenção para o mini-ciclo que a Cinemateca a partir de 15 de maio dedica a Otto Preminger, discípulo de Lubitsch, e um dos grandes criadores de Hollywood.

Séries

A terminar esta semana na 2, a excepcional série italiana "1992", que quase passou despercebida e não merecia.
O regresso de Fargo com a terceira temporada e em que o primeiro episódio é superlativo. No TVSéries às 23h ao domingo.

Documentários

Quinta, 1h, na TV5, Hergé e Tintin, sobre o criador e a personagem da BD que encantou todas as gerações
No NG,, quinta 23.45h, "A ascensão dos nazis", documentário que conta toda a ascensão de um pesadelo

Restaurante

Na Rua do Cruxifixo, o Bella Ciao, um excelente italiano e com preços muito em conta e com um ambiente muito simpático e típico.

Salgueiro Maia não merecia o 26 de Abril

No dia 25 de Abril escrevi que “o problema maior do espírito de Abril é que as pessoas já não se lembram bem de Salgueiro Maia porque, depois da Revolução dos Cravos, veio o pesadelo de uma corja de abutres e corruptos que transformaram a alegria da liberdade num jardim de negociatas e comissões em que os seus despojos tivemos nós de pagar”.
Porque se há algo que semeia a instabilidade e a revolta das pessoas contra um regime, contra a classe política, contra instituições que devem ser impolutas, é vermos todos os dias o clima de impunidade que abrange uma série de criaturas que mata empresas, se serve dos cargos que ocupa para depois, ou durante, enriquecer.
É a corrupção que vai corroendo os alicerces da democracia, é a desconfiança com os detentores de cargos públicos que semeia o afastamento de eleitores e eleitos e constrói os elevados índices de rejeição de uma actividade, a política, que é nobre e deve servir para a melhoria da comunidade.
Temos 43 anos de liberdade e isso é uma conquista excepcional que devemos celebrar todos os dias. Eu acredito na política, eu acredito nas pessoas de bem — mas são cada vez mais um oásis no deserto — que trabalham tendo em vista o bem público e o crescimento a todos os níveis da sociedade.
Porém, não convivo bem com corruptos e especialistas em “dar uma palavrinha” que fizeram do que se conquistou com o 25 de Abril no seu parque de diversões do Monopólio, tornando-se milionários, com os portugueses a pagarem sucessivamente todas as aleivosias, todos os erros de gestão, todas as dívidas de bancos que serviram para negócios especulativos de alguns marajás.
Escrevia o Nuno Garoupa, um dos bons, na semana passada que “ninguém pode fingir que Portugal é um oásis sem corrupção, sem gestão danosa, sem tráfico de influências e sem grande criminalidade de colarinho branco”. Pois não pode. Porque é isto tudo que mina os valores de Abril.
O problema é que, “mea culpa” também, todos nós contemporizámos para esta impunidade vigente. Nunca ninguém se revoltou a sério. Porque só com barulho se combate a corrupção, que navega melhor no silêncio da lama, nos murmúrios das salas sem alma, nos favores debaixo do pano.
A partidocracia, os aparelhos partidários de gente que cresce ali sem nada saber fazer na vida, o financiamento de campanhas eleitorais, são a seiva de onde florescem corruptores e corruptos e que causam o sangramento da democracia e da liberdade.
Devemos estar todos gratos aos capitães de Abril pela liberdade em que vivemos, mas o ar que respiramos não é o desse dia histórico, é perverso e cheira a mofo pelo perfume da impunidade. A corrupção não pode matar a esperança do dia seguinte. Salgueiro Maia não merecia o 26 de Abril.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Notas sobre as eleições francesas

Não escrevi até agora nada sobre as eleições francesas. Não o fiz porque conheço a política francesa e ainda melhor as dinâmicas de campanhas eleitorais e neste momento qualquer observador tem de ser cauteloso. Mas há 5 notas que deixo:

1- Ao contrário de outros, eu não comento o que não sei, por isso alguns deviam estar calados sobre estas eleições, porque não percebem nada do estado da arte gaulês e muito menos de campanhas e comunicação política;

2- Há apenas uma certeza:... neste momento o cenário partidário tradicional morreu. A esquerda socialista implodirá, a direita tradicional que sempre teve grupinhos e muitos chefes, vêem o seu poder esvaziar com a ascensão do partido Le Pen e a afirmação de um centro, que tinha como referência Bayrou, e passa a ter Macron;

3- como em todo o mundo, crescem dúvidas sobre os institutos de sondagens. Até que ponto esta realidade de 4 candidatos presidenciais teoricamente, e tecnicamente, empatados corresponde à realidade é algo que só será dissipado depois das urnas encerrarem;

4- também como em todo mundo, vemos a radicalização dos discursos e a ascensão das pontas - esquerda e direita - do espectro partidário com Mélenchon e Marine.

5- Tenho saudades de Mitterrand, Rocard e até de Giscard e Chirac, e muitas mais de De Gaulle. Outros homens, outros tempos.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Sugestões para a semana

Livros

"Memórias Anotadas", José Medeiros ferreira, Temas & Debates, 446 páginas. Homem inteligente e culto que, infelizmente, partiu cedo. E como diz neste seu livro que é um testemunho sobre um tempo onde homens de outra categoria circulavam por aí, foi um homem que podia ter sido melhor aproveitado por Portugal.

"Memórias", Raul Brandão, Quetzal, 622 pág. No âmbito dos 150 anos do seu nascimento, várias edições surgiram deste grande escritor português. Neste volume estão reunidas as memórias que anteriormente estavam divididas em 3 tomos. Se na anterior sugestão tivemos alguém que conheceu a política e a cultura portuguesa no final do século XX, aqui temos a descrição da passagem do século XIX para o XX. Ambos interessantes também desse ponto de vista.

"A sétima função da linguagem", Laurent Binet, Quetzal, 467 pág. Acabei de o ler no sábado, é um romance sobre a morte de Roland Barthes, onde pontificam uma série de grandes referências da cultura francesa e também a disputa de Giscard contra Mitterrand. Livro interessantíssimo, cheio de nuances culturais, que se diverte com a curiosidade intelectual do leitor.

Cinema

Em casa volto a mencionar no TVC 2, na sexta às 17.25h, a possibilidade de verem um dos melhores filmes do ano passado: "Mustang" de Deniz Gamze Eruven.
Também no TVC 2, na quinta, um ciclo de ficção científica dos anos 70, com dois de culto "Soylent Green" e "Zardoz".
Nas salas, em vez de discutirem a qualidade dos nomeados para os Óscares, sugiro que vejam CINEMA. Aproveitem o ciclo no Nimas com um dos melhores realizadores da história do cinema: Kenji Mizoguchi. Dos 9 filmes a apresentar em cópias restauradas, só não vi um. «A Mulher de quem se fala». de resto têm duas obras-primas, «Os contos da Lua vaga» e «Os amantes crucificados» e depois os outros seis, especialmente «A Imperatriz Yang Kwei  fei», são de uma beleza extraordinária. Não percam.

Séries

Para quem só leu estas sugestões hoje, e evitando já que me apareça alguém a mencionar séries que eu conheço, chamo a atenção que estas sugestões são sobre as novidades da semana ou alguma série que esteja a passar despercebida no momento e não sobre as que considero melhores na história das séries televisivas. Posto este aviso para os mais incautos, chamo a atenção para a estreia, hoje, 22.45 no TVSéries, da última temporada de "The Leftovers" e não posso deixar de criticar o pornográfico horário em que a fox Crime decidiu estrear na ultima sexta (ou melhor, sábado á meia-noite) a 5a temporada da excelente "The Americans"temporada de "the Americans".

Documentários

Às terças, na RTP2, tem passado um excelente documentário sobre a América nos anos 70. por volta das 23.30h podem ver uma das décadas mais marcantes na televisão, na política, na cultura.
Na quarta, para os amantes da pintura, também na 2, a história de um pintor que nasceu grego e que marcou a Idade de Ouro de Espanha: "El Greco". Será a partir das 23h.

Restaurante

Se quiserem quando saírem à noite (mas também podem almoçar) optar por um restaurante simples, de comida portuguesa, mas de atendimento simpático e ainda por cima com preços em conta para a qualidade que é apresentada, procurem O Bacalhau na rua de São Paulo.

Cristiano Ronaldo nunca foi a Torremolinos

É muito difícil arranjar adjectivos para ilustrar com justeza as proezas desportivas de Cristiano Ronaldo. Todo o mundo o conhece, é o desportista que mais dinheiro ganhou em 2016, é feliz a fazer o que gosta e nunca foi a Torremolinos em viagem de finalistas.
Este não é um artigo sobre futebol, é sobre a força mental que deve estar na base da criação do sucesso. CR não nasceu em berço de ouro, não teve uma infância fácil, foi criado com amor mas numa família que sofria para todos os dias ter pão na mesa.
Para lá dos seus golos e troféus, o seu melhor exemplo e legado é a maneira como fintou as curvas da vida com mentalidade de campeão. Porque o seu mérito é a capacidade de trabalho, a ambição de ser melhor todos os dias, querer ganhar e superar-se para bater todos os recordes.
CR é um empreendedor que tem por base empresarial o seu talento inato. Apostou todos os dias muito forte na sua área de actividade, trabalhou mais do que o horário de expediente para limar as arestas do seu negócio, aperfeiçoá-lo para se tornar letal como produto e limando as suas debilidades. Teve uma boa gestão de carreira e escolheu os mercados onde podia explodir, seleccionou parceiros e instituições que o valorizaram e optou por uma equipa profissional que o projectou com comunicação e marketing de topo.
É esta a base do sucesso de uma empresa. CR é uma marca mundial, um ícone universal, tão poderosa como a McDonald’s, Nike, Mercedes, porque assenta na honestidade de se erguer do nada e todos os dias, com trabalho, esforço e suor, continuar a atingir todos os objectivos a que se propôs.
E diverte-se também. Há tempo para tudo. Todo o trabalho honesto merece lazer. Mas tenho a plena convicção que para ter sucesso nunca se perdeu em disparates nem selvajarias. Era bom que muitos jovens olhassem mais para o CR que os pode inspirar. Todos os dias devem querer saber mais, ter curiosidade intelectual para descobrir mais coisas, porque o saber nunca ocupa lugar.
Não deve ser motivo de orgulho para ninguém destruir um hotel, atirar colchões para uma piscina, vandalizar bens alheios. O objectivo que deve nortear as nossas vidas é sermos melhores, trabalharmos para isso, para, posteriormente, termos o reconhecimento merecido ao nosso empenhamento diário.
O episódio deplorável dos meninos em Torremolinos é tudo aquilo que não interessa a ninguém e que deve motivar uma profunda reflexão, em primeiro lugar nos pais, e na sociedade. CR até tem um grito peculiar, quase primitivo, parece o momento de libertação de todas as pressões de um jovem tímido que alcançou o sucesso, mas não ficará na história por nenhuma barbárie. Seria bom olhar mais vezes para ele como modelo do Portugal que queremos.